Segunda Parte - Um Encontro Inesperado
Terceira Parte - Um Encontro no Jardim
Quarta Parte - Encontros
Final - Desencontros
Toda a Colina pertencia a uma antiga família; do Veio de Prata (um riacho de águas caudalosas à oeste) até o Bosque Cinzento, à leste. No centro da propriedade, destroços de um antigo estábulo e uma casa velha e abandonada faziam um estranho contraste com um soberbo jardim e um pequeno lago cristalino e repleto de vida. Era sublime e assustador vê-los a qualquer hora que fosse. Enquanto a casa parecia ter sido deixada às traças, o jardim parecia receber cuidados todos os dias, com o melhor dos jardineiros.
Terceira Parte - Um Encontro no Jardim
Quarta Parte - Encontros
Final - Desencontros
Toda a Colina pertencia a uma antiga família; do Veio de Prata (um riacho de águas caudalosas à oeste) até o Bosque Cinzento, à leste. No centro da propriedade, destroços de um antigo estábulo e uma casa velha e abandonada faziam um estranho contraste com um soberbo jardim e um pequeno lago cristalino e repleto de vida. Era sublime e assustador vê-los a qualquer hora que fosse. Enquanto a casa parecia ter sido deixada às traças, o jardim parecia receber cuidados todos os dias, com o melhor dos jardineiros.
O pôr-do-sol chegara mais cedo àquele dia n’O Vale, e uma brisa fria sacudia as folhas da única árvore na Colina no início da noite. Os poucos raios de luar atravessavam o manto de nuvens escuras e lançavam uma sombra fraca sobre o casarão quase em ruínas.
O senhor Alcântara desceu a escadaria às pressas, estava atrasado para uma entrevista incomum. Era um homem alto, de cabelos curtos em cachos escuros. Tinha os ombros caídos sob o fardo de um segredo terrível. Há dez anos, seus olhos azuis perderam o brilho e em seu lugar ficara apenas o cinza opaco e sem vida. Fazia apenas quatro dias que recebera a notícia de que havia herdado toda a Colina. Qualquer um que conhecesse os mistérios daquele lugar e a história de vida do senhor Alcântara, diria que ele não merecia o que estava para acontecer. Ele era um homem bom, mas não demonstrou a quem mais importava.
Seu filho, Pedro, um menino de olhos azuis como os do pai e cabelos castanhos como os da mãe, desceu logo atrás, falando alto; o mesmo assunto de sempre:
— Não acho justo pai! Nem pude me despedir! Por que de novo?
O senhor Alcântara virou-se para o filho com um olhar que misturava compaixão e aborrecimento. Ele soltou os ombros e suspirou.
— Você só tem doze anos. Quando for mais velho poderá entender, então, prometo lhe contar. — ele perdera a conta de quantas vezes repetira a mesma frase ao longo dos anos.
— Sempre a mesma coisa! Estou cheio disso!
O senhor Alcântara virou-se para o cabide ao lado da porta, pegou seu casaco, dobrou-o sobre o braço, apanhou o guarda-chuva e saiu sem dar atenção aos protestos do filho.
Pedro o seguiu correndo, mas parou no degrau da varanda. Não achava certa ou justa a atitude do pai. Não entendia por que precisavam se mudar com tanta freqüência e em tão pouco tempo. Esta era a rotina dos dois desde que se lembrava. Já não agüentava mais sair no meio da noite, como se estivessem fugindo, sem se despedir dos poucos amigos que conseguia fazer. A raiva inchava em seu peito e ele achou que iria explodir se não dissesse alguma coisa.
— Tudo bem, então! — gritou — O senhor disse que não pode me contar, mas a verdade é que não se importa comigo! — o senhor Alcântara parou onde estava, de costas para o filho — Não se importa se eu deixo meus amigos, se nunca mais falo com eles! Não se importa...! — lágrimas verteram sobre seu rosto, mas ele continuou falando — Também não vou me importar mais. Eu tenho vontade de sumir, de nunca mais olhar pra você! Talvez eu faça isso. Talvez o senhor não me encontre aqui quando voltar. Eu te odeio pai! Te odeio!
O senhor Alcântara virou-se para o filho sem saber o que fazer. Olhou-o como se não o conhecesse. Teve vontade de dar-lhe uma surra por dizer tantas bobagens. Mas ele o amava. Amava tanto que sofria ao ver o sofrimento do filho. Mas ele não poderia contar. Jamais diria ao menino que tudo, tudo, era por ele.
— Vá para dentro Pedro. — disse com frieza — Para o seu quarto. E não saia de lá até eu voltar.
O senhor Alcântara virou-se novamente e desceu a colina até a garagem perto do portão.
Pedro enxugou as lágrimas com a camisa e se arrependeu do que dissera. Amava o pai, mesmo sem entender o que estava acontecendo. Contudo, como um gesto de rebeldia, não seguiu para o quarto, mas para o pequeno e rústico balanço sob a árvore.
Ele olhou a casa e mais uma vez sentiu arrepios. Ela era assustadora, mesmo de dia. Os anos, talvez séculos, de existência sob sol e chuva, haviam desgastado a pintura criando listras escuras onde a água escorrera, dando-lhe um aspecto melancólico e terrível. Ela era estranha. As janelas de guilhotina, em vãos salientes, pareciam ter sido espalhadas ao acaso. Um estilo gótico e vitoriano, com gárgulas monstruosas, completava a figura ameaçadora. “Por que ali?” perguntou-se. “Por que não numa casa comum?”.
Um vento mais forte cruzou o jardim como se sussurrasse algo que ele não poderia identificar. Um ruído baixo, junto ao canteiro de rosas, fez com que saltasse de repente do balanço. Ele olhou para os lados e deu-se conta de que estava sozinho. “Talvez seja realmente melhor esperar no quarto”.
O interior da casa era tão aterrorizante quanto o exterior. Era escuro e, mesmo que todos os candeeiros a gás fossem acesos, ela continuaria a ser sombria sob a fraca luz amarelada. Móveis velhos e repletos de pó pareciam ocupar cada centímetro da casa. A mobília de nogueira e os tapetes castanhos e verdes, quase apagados, completavam a impressão de estar entrando no século XVIII ou XIX. Com certeza estava abandonada há muito tempo.
A porta de folha dupla reclamou quando ele a fechou e um pouco de pó caiu sobre a cabeça. Ele sacudiu a poeira e olhou-se no espelho de corpo à sua frente. “Lugar estranho para se colocar um espelho”.
Não conseguia lembrar de algum dia ter se sentido pior. Suspirou, deixou cair os ombros e não pôde evitar um sorriso: fizera exatamente como seu pai costumava fazer quando estava aborrecido.
Ao lado do espelho havia uma mesa com vários porta-retratos antigos, provavelmente do início do século. Eles estavam ali há três dias, mas só então uma das fotos chamou sua atenção. Era de um garotinho, tirada à frente do jardim, com a casa, já em ruínas naquela época, logo atrás. Na janela correspondente ao quarto de Pedro havia uma mancha branca. Ele esfregou o dedo no vidro a fim de limpá-lo, mas a mancha estava do lado de dentro, ou na própria foto. Ele virou o porta-retrato para abri-lo e viu letras retorcidas e manchadas, como se tivessem sido escritas entre lágrimas:
“Não queria que tivesse acontecido, meu Peter, meu menino. Minha vida se finda em lágrimas e saudade do menino que corria e brincava pela casa”.
Mamãe
Pedro mal pôde assimilar as palavras quando, de repente, um estrondo no andar de cima, como algo pesado caindo sobre madeira, o assustou. Seus braços ficaram moles e o porta-retrato caiu no chão, quebrando com um som agudo. O barulho soou pela casa silenciosa. Os poucos candeeiros acesos piscaram e apagaram.
Ele abaixou para engatinhar em busca de abrigo e cortou a mão num caco de vidro. Abafou um grito e caminhou tateando o chão até a parede da porta. Sabia que havia um relógio quase da sua altura ali, mesmo que não estivesse funcionando, e sabia que poderia se esconder entre ele e o armário de pratarias, atrás das pesadas cortinas.
Esperou por quase dez minutos, mas não houve mais barulho. “Provavelmente foi algo idiota e antigo que caiu com o vento” disse pra si mesmo. Ele limpou o sangue das mãos na cortina e, sentindo-se estúpido e covarde, saiu do esconderijo em busca de algum candeeiro próximo. Encontrou-o, acendeu-o, olhou ao redor e perguntou-se mais uma vez: “Por que aqui?”.
Pedro achou melhor subir, apesar da pedra de gelo em seu estômago insistir para que continuasse escondido. A escadaria era outra coisa que lhe irritava. Toda vez que alguém subia ou descia ela reclamava como uma senhora rabugenta, como se na verdade estivessem pisando sobre seus ossos velhos.
Ele seguiu para o quarto com cautela, olhando cada cômodo que estivesse com a porta aberta, tentando ouvir qualquer ruído estranho e evitando as tábuas que faziam barulho. Nada estranho aconteceu ou foi visto no corredor, mas ele não conseguia se livrar da sensação de que algo estava muito errado. Sua mão latejava e seu coração estava disparado. “Por que o senhor me deixou aqui sozinho?”.
A porta de seu quarto estava fechada. Ele pôs a mão sobre a maçaneta, girou e abriu devagar. Sem que pudesse pensar ou reagir, alguém o agarrou numa espécie de abraço desajeitado.
— Ei! — gritou tentando se livrar dos braços de quem quer que fosse — Me solta! — quando se recuperou do susto, viu uma garotinha agarrada à sua cintura. Ela devia ter uns seis anos. Estava usando vestido, um laço de fita, que prendia os cabelos muito escuros e cacheados, e sapatos. Tudo era tão branco, a exceção dos cabelos, que ele achou que nunca tinha visto um branco tão branco. E ela era tão... estranha.
— Olá Pedro! — disse ela como se o conhecesse por toda a vida — Estava esperando você.
Continua...
Continua...
Seu poder de descrição aumentou muito. Você tem uma capacidade de narrar os fatos sem antecipar o que não deve - criando uma expectativa muito adequada à proposta de suspense.
ResponderExcluirEu diria que você já tem um estilo próprio, uma forma de escrever particular sua muito bem delineada. Fico feliz por você.
Agora entre no meu blog, leia TODAS s postagens e comente em TODAS elas.
Concordo com o Charles, leia todas as postagens dele e comente em todas.
ResponderExcluirBrincadeira...
Você já tem um estilo próprio, leve-o adiante.
Qualquer coisa estaremos aqui nesse pequeno espaço para criticá-lo, seja para gratificá-lo ou para alertá-lo. De qualquer maneira estaremos aqui, conte conosco. Se precisar de uma ajuda nos textos também.
Vá em frente, faça o blog tomar as proporções devidas.
Grande abraço.
Muito legal.
ResponderExcluirCheguei aqui através da comunidade dos novos escritores no Orkut.
Parabéns. :)
Olá! Três comentários pra uma estréia é muito bom! Isso me faz querer escrever mais hehehe, sabe, inflar o ego...
ResponderExcluirCharles, se não fosse por você, ainda estaria escrevendo como no prezinho hehehe... Valeu amigão. Ainda estou tentando criar um estilo próprio e suas palavras me mostram que estou, se não no caminho certo, pelo menos próximo do caminho certo.
Esperatus, obrigado por toda a ajuda, opiniões e críticas. Sem você pra questionar de forma tão imparcial, com certeza estaria muito mais longe do estilo próprio.
Nanda, quero agradecer a você, em especial, pelo comentário conciso e sincero. Significou muito pra mim, pois és alguém que ainda não conheço, e um elogio assim, desculpem os amigos, me incentiva de forma especial.
Valeu galera, espero postar a continuação ainda hoje.
Peraí que estou tentando recuperar o fôlego aqui...
ResponderExcluir...garoto, você me deu um susto!!! Que menina misteriosa!
Olha, sinceramente, tua forma de escrever e conduzir a trama e a tua relação com o leitor me lembram um escritor: Joe Hill... ele é filho do Stephen King... um dos melhores escritores que já conheci.
Como você consegue se equiparar ao filho de Stephen King??? É um dom, sabe? Realmente fantástico!
Bom, não vou me prolongar...
Mas o senhor faça o favor de postar a parte 2 ainda hoje e acho bom que seja cedo, mocinho, porque não posso dormir tarde e estou louca pra ver no que vai dar isso!!!
Bjus
Te adoro, meu amigo Tinho!!! rsrsrs
Quel
Oi Quel! Que bom que você comentou e gostou!
ResponderExcluirObrigado pela comparação, meu ego foi lá pra cima heheheh... infelismente não conheço Joe Hill, mas vou procurar. Tem algum livro que tenha gostado e posso me indicar?
Vou tentar terminar a 2ª parte hoje e lançar um pouco mais de sombras e mistérios nesta história...
Também te adoro gata... hehehe
Beijão!
Wooow... então amanhã eu vou poder ler... mais mistério? Adooooro!
ResponderExcluirSim, indico o livro "A Estrada da Noite"... cara, vc toma sustos lendo este livro!!!!
Bjus
Quel
Heeeeeeeeeeyyyy!!!!
ResponderExcluirCadê a segunda parte???
(cara de brava)
Não consegui postar ontem porque minha internet caiu e só voltou agora... mas já, já coloco aqui.
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