segunda-feira

Encontros

Primeira Parte - A Colina
Segunda Parte - Um Encontro Inesperado
Terceira Parte - Um Encontro no Jardim
Final - Desencontros

    Pedro não sabia o que pensar. Não podia acreditar que sua história fosse tão triste, permeada de tragédia. Entendia agora o porquê de seu pai não lhe contar. Era doloroso demais.
    — Não fique tão triste Pedro. — disse a menina se aproximando e afagando seus cabelos — A dor vai passar quando você a encontrar.
    — Encontrar?
    — Sim. Ela também está aqui.
    — Está aqui? Na casa? Como...? — indagou ele erguendo os olhos cheios de lágrimas para olhar a menina.
    — Ela não suportou viver naquele lugar. Dois anos depois de ser abandonada por ele no hospício...
    — Ele a abandonou num hospício? — perguntou ele levantando-se indignado — Ela morreu lá?
    — Sim. — respondeu ela simplesmente — Vamos, ele acabou de chegar. Está lá embaixo. Você poderá dizer a ele tudo o que está sentindo. Depois, poderemos encontrar a mamãe.
    Pedro não hesitou, não reagiu, quando a menina pegou sua mão e o guiou para fora do quarto.


    Thiago Alcântara continuava a não entender o que havia acontecido. Não entendia por que havia decidido sair de casa atendendo a um pedido de um bilhete anônimo que encontrara na moldura do espelho. Era certo que o bilhete estava endereçado a ele, mas isso não era motivo para sair e deixar o filho sozinho numa casa velha e assustadora. E quem era o homem que encontrara no jardim? Por que o alertara sobre a tal maldição? Seria uma pista de que fizera algum mal ao seu filho?
    A porta da frente estava entreaberta. Thiago entrou cauteloso no hall, deixando o guarda-chuva no cabide. Apenas um dos candeeiros estava aceso. Não ouvia nada além dos estalos de seus passos contra o chão.
    Sem entender o real motivo, talvez medo de que as palavras do homem fossem verdadeiras, resolveu acertar as horas e fazer o velho relógio funcionar novamente. O tic-tac ressoou no silêncio da casa. Faltavam treze minutos para a meia-noite.
    Olhou ao redor, procurando algum sinal de invasão. Então, viu manchas de sangue nas cortinas ao lado do relógio. Seu coração disparou.
    — Pedro. — sussurrou — Meu filho onde você está?
    Caminhou através da sala atento a qualquer sinal de luta ou barulho. Qualquer coisa que indicasse a localização de Pedro.


    Pedro atravessou o corredor. Seus passos lentos indicavam que não ansiava pela conversa que teria com seu pai. A menina não estava mais com ele. Desaparecera sem que percebesse. Quando chegou ao alto da escadaria, viu o vulto de seu pai entre os móveis da sala.
    Desceu devagar, tentando não pisar nos velhos ossos da antiga escada, mas era impossível não fazer barulho. Ele viu quando seu pai virou-se para olhá-lo, após o ranger do quinto degrau.
    — Pedro! — gritou Thiago correndo para alcançar o filho — Pedro! Você está bem?
    Pedro não conseguiu responder. Apenas ficou parado no pé da escada, frio, insensível, enquanto seu pai o abraçava.
    — Eu não devia ter saído Pedro. Não devia tê-lo deixado sozinho. Perdoe-me.
    — Perdoa-lo? — questionou Pedro desvencilhando-se do abraço — De que exatamente?
    — O que houve meu filho? Você... você estava chorando? Aconteceu algo enquanto estive fora?
    — Nada demais. Apenas recebi uma visita. — respondeu sentando-se numa poltrona empoeirada.
    — Que visita? Quem te visitou? O que queria?
    — Minha irmã. — respondeu ele virando-se para encarar o pai. Queria ver sua reação. Queria saber se iria continuar mentindo.
    — Sua... sua... irmã? Pedro... — Thiago estava atordoado demais para dizer qualquer coisa.
    — Minha irmã! — Pedro gritou. Não conseguiria conter a raiva. Precisava gritar, explodir e desaparecer. Seu coração estava doendo demais, ardia em seu peito como se tivesse sido rasgado ao meio. — Ela veio me fazer uma visita. E me contou tudo! Tudo! Ela contou que o senhor a matou! Contou que bebeu demais e a matou! — as palavras saiam de sua boca como se não fossem suas — E depois jogou minha mãe num hospício e deixou ela morrer sozinha, jogada fora!
    — Não!
    Thiago estava perdido. Completamente perdido. Como Pedro soube da irmã? Ele tivera o cuidado de nunca deixa-lo saber. Era doloroso contar. Era doloroso lembrar. E que sandices eram aquelas sobre ter matado a pequena Gabrielle?
    — Eu não matei sua irmã! — Thiago não conseguiu segurar sua mão. Quando percebeu o que estava fazendo era tarde demais.
    O som ecoou pela casa, através do jardim e perdeu-se em algum ponto da noite. Ele viu Pedro chorando, sua mão esquerda sobre o lado esquerdo do rosto. Então, entendeu. Nunca devia ter escondido. Nunca devia ter envolvido seu filho.
    — Não matei sua irmã. — sua voz ficara suave, leve, carregada de arrependimento e alívio — Jamais faria isso. Mas não o culpo por acreditar que eu pudesse ter feito. Errei em três coisas das quais me arrependo agora: por não ter lhe contado, por ter lhe envolvido nesta história e por ter deixado sua mãe abandonada num hospício para ir atrás dos culpados.
    Pedro estava inerte. A dor em sua face parecia arder mais que a dor em seu peito. Seu pai nunca levantara a mão para ele antes. O que estava acontecendo? Por que estavam brigando?
    — Pai. — conseguiu dizer levantando-se para abraça-lo — Pai desculpa. Eu não... eu não devia ter acreditado.
    — Sua mãe e sua irmã foram atacadas Pedro. Alguém ou alguma coisa matou Gabrielle. — Thiago não parou de falar. Sentia que se não falasse algo dentro dele racharia e sangraria até consumi-lo por inteiro. — Eu trabalhei até mais tarde àquela noite. Eu... eu sempre trabalhava até mais tarde — continuou ele com a voz carregada de culpa — Sua mãe ligou. Estava com medo, disse que estava ouvindo vozes e que o vento estava estranho... Eu não quis ouvir, estava atrasado para a entrega de um relatório. E eu não acreditei, ou não quis acreditar. Queria terminar o relatório. Apenas disse a ela que descansasse. Quando voltei para casa sua mãe estava no quarto e... e... ela estava segurando Gabrielle nos braços. Tão pequena, tão frágil e... morta. Sua mãe estava em choque. Repetia sem parar que alguém havia levado nossa filha embora. Dizia que aquela em seus braços não era nossa menina. Que ela fora levada por sombras. Nossa vida acabou naquele dia. Nunca encontraram os responsáveis. E é por isso que nos mudamos constantemente. Em parte para protegê-lo de quem quer que tenha feito aquilo. E também porque tenho empenhado meus dias para encontrar os culpados. Para fazê-los pagar.
    — Mas então... por que a menina disse que foi o senhor?
    — Porque quer aprisioná-los aqui. — respondeu uma voz que o senhor Alcântara reconheceu, vinda do jardim.
    — Isso não é verdade Thiago, querido. — respondeu uma voz doce do outro lado da sala. Thiago não ouvia aquela voz há anos. Virou-se abruptamente e contemplou assustado o rosto pálido de sua mulher. Ao seu lado estava a jovem Gabrielle, tão pálida quanto a mãe, abraçando-a — Não exatamente. Apenas queremos ficar com vocês. Ter nossa família unida novamente.
    — Amanda. — disse ele com a voz embargada.
    — Não dê ouvidos ao que ela diz Thiago! — gritou a voz do lado de fora — Venha para o jardim!
 
    O relógio ao lado da porta tocou.
 
    Uma badalada.

 Continua...

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