Primeira Parte - A Colina
Segunda Parte - Um Encontro Inesperado
Terceira Parte - Um Encontro no Jardim
Quarta Parte - Encontros
Peter continuava sentado sobre a pedra à beira do lago, mesmo que ninguém pudesse vê-lo agora. Observava o homem com quem acabara de conversar subir os últimos degraus da escada para a varanda. O homem sentenciado a sofrer em seu lugar.
Depois de anos aprisionado, anos sofrendo a solidão dos perdidos, não restava espaço para remorso em sua alma. Apenas o frio insensível. E a vontade de ter de volta o controle sobre sua vida.
— Fez um bom trabalho até aqui Peter. — disse uma voz sussurrante e fria.
— Não há um bom trabalho no que faço. — respondeu Peter olhando para o lago e observando a figura translúcida e azulada de uma mulher emergir das águas geladas — Não há nada de bom no que faço.
Peter contemplou a mulher. Seus cabelos longos moviam-se como pequenas ondulações. Sabia que não era sua mãe quem estava ali, mas, mesmo assim, ainda hoje, depois tanto tempo, sentia-se bem por vê-la novamente.
— Hoje terá sua liberdade. Não considera que isso seja bom?
Peter não respondeu. Não queria pensar que sua liberdade custaria a escravidão de outro.
— Você foi o melhor. Serviu como nenhum outro. Mesmo contando o incidente com a menina há dez anos. Se mostrar à mãe daquela forma, tentar alertá-la, não foi sábio de sua parte.
— Não me faça lembrar.
— Trouxe-me a menina quando deveria ter trazido o garoto.
— Não me faça lembrar! — gritou Peter erguendo-se da pedra e olhando a mulher nos olhos — Não quero lembrar!
— Perdoe-me. — respondeu ela com um pequeno sorriso satisfeito — Mas você consertou as coisas. Trouxe o menino. Enfim terá sua liberdade.
— O que vai acontecer a você se eles não saírem? — perguntou ele sentando-se novamente.
— Estarei enganada em julgar que está se preocupando comigo Peter, meu menino?
— Não me chame assim. Você não é minha mãe. — respondeu Peter com indiferença — E estou perguntando apenas para saber o que acontece ao jardim se a casa conquistar as almas. Desde que estou aqui o jardim sempre recebe as almas.
— Você precisa ir. Sinto que a influência da casa está superando o desejo deles de seguir em frente. Não trouxe o homem de volta da armadilha da casa para que ele fique lá dentro.
Peter levantou-se e seguiu na direção da casa. Parou apenas no limite entre a escada e grama no jardim.
— Mas então... por que a menina disse que foi o senhor? — ele ouviu o menino dizer.
— Porque quer aprisioná-los aqui. — respondeu ele.
— Isso não é verdade Thiago, querido. — ouviu uma voz responder. Não sabia a quem pertencia a voz, mas sabia que a casa teria assumido a aparência de um ente querido. Era assim que acontecia no jardim — Não exatamente. Apenas queremos ficar com vocês. Ter nossa família unida novamente.
— Amanda. — disse ele com a voz embargada.
— Não dê ouvidos ao que ela diz Thiago! — gritou Peter, precisava convencê-lo a sair — Venha para o jardim!
Dentro da casa, o relógio ao lado da porta tocou.
Uma badalada.
— Não vá meu amor. Fique conosco. Não era assim que sempre quis? Que voltássemos a nos encontrar, que nossa família se unisse novamente?
Outra badalada.
— Não Thiago! Vocês ficarão presos para sempre na casa!
— Vocês ficarão conosco papai. — disse a menina com alegria na voz — Fique com a gente.
O relógio tocou novamente.
Thiago estava atordoado. A visão de sua família reunida novamente o abalou como nenhuma outra coisa poderia fazer. Queria unir sua família. Sempre quis. Sempre desejou.
O relógio tocou mais três vezes.
Ele segurou a mão de Pedro e seguiu na direção da porta. Sentia os pés pesados, lentos. Não sabia o que fazer. Queria ficar, mas algo lhe dizia que não deveria.
— Isso Thiago. Apenas siga para o jardim e feche a porta atrás de você.
Mais uma badalada.
— Pedro, meu filho. — disse a mulher estendendo os braços para o menino — Senti tanto a sua falta. Fique comigo. Há tanto tempo espero por um abraço.
— Mãe... — sussurrou Pedro parando ao lado de seu pai.
— Não dê ouvidos a ela! Não é sua mãe! É a casa! Ela está fazendo isso. Está se alimentando de suas emoções. Saiam daí!
— Não posso segura-los aqui Thiago. — disse Amanda se aproximando devagar — Apenas saiba que te amo e sinto sua falta. Se quiser ficar... se também sente minha falta... nossa falta... por favor, fique.
Thiago não olhou para trás, apenas ouviu. As palavras chegavam a ele como ecos do passado. Um passado onde ele negligenciou a família por tempo demais. Eram palavras que o culpavam, que lhe diziam que era seu dever consertar as coisas.
Ele ergueu a mão em direção à porta. Não havia atravessado. Sentiu o aperto da mão de Pedro. Não iria atravessar.
O relógio tocou a última badalada.
Thiago fechou a porta.
Quando o sol despontou sobre as montanhas pela manhã, seus raios incidiram sobre um telhado limpo de telhas de barro e paredes brancas e novas. Não havia sinais de limo nas janelas nem teias de aranhas nas colunas. A velha casa da colina estava como nova e parecia respirar o ar orvalhado da alvorada. O único contraste com a belíssima vista era o jardim malcuidado. A grama estava amarelada, as flores murchas, as árvores secas e o lago, antes tão límpido e tão belo, jazia cinza e sem vida.
Ao pé da colina, um homem bem vestido, de traços finos e elegantes, contemplava sua antiga prisão. Contudo, não parecia feliz. Em seu íntimo remoia a pergunta feita pelo jardim em sua última conversa: hoje terá sua liberdade. Não considera que isso seja bom?
Antes de dar as costas para a casa e o jardim, Peter viu um menino olhando-o pela janela mais alta.
— Vou encontrar um jeito de tirá-lo daí garoto. — disse ele virando-se para a rua de pedras desgastadas — Não serei livre enquanto você não for.
Fim.
Mantém o nível das partes anteriores. Seus diálogos e descrições são convincentes, e o texto em si é competente naquilo que se propõe. Mas confesso que sinto falta de orcs, dragões, mulheres seminuas e violência desenfreada.
ResponderExcluirMas mesmo assim é um bom post.