quarta-feira

Sangue e Dor

    Elen estava na cozinha. A torneira da pia jorrava. Sangue escorria na faca em sua mão trêmula e lágrimas desciam por sua face. Sentia-se perdida, não sabia o que fazer.
    Como posso ter deixado tudo acabar assim?
    Respirou fundo em seu desespero tentando colocar os pensamentos em ordem.
    Ele estava lá em cima, insensível a tudo agora. Seu marido nunca mais a tocaria novamente.
    O que acontecerá aos meninos? O que iriam pensar depois que...? Mais uma vez, Elen se perdia com os questionamentos mundanos de quem nunca se preocupa consigo.
    Lembrou-se das brigas, sempre o mesmo motivo, banal e sem propósito: ciúme. Nunca entendera, nunca dera motivo para que ele desconfiasse dela, mas ele insistia em desconfiar. Hoje sabia por quê. Ele a traía.
    Ela o viu com a amante há duas horas. Finalmente entendeu: ele não se sentiria culpado se criasse a fantasia de que ela o traía.
    Típico dele. Como pude não notar? O conhecia há tanto tempo! Ou nunca o conheci de verdade? Será que ele fingia o tempo todo? Quantas mentiras, quantas amantes em dez anos?
    Elen sacudiu a cabeça. Precisava espantar os pensamentos inúteis. Precisava tomar providências imediatamente. Ser tão fria quanto ele agora. Estava tudo acabado. Ele não a prejudicaria mais, nunca mais. Nunca se imaginou numa situação como aquela. Estava perdida. Sentia-se perdida. Confusa.
    A dor em seu corpo começou a incomodá-la, lembrando-lhe de que era apenas mulher, humana, frágil. Seu sangue escorria pela faca. A ardência em sua mente era pior que a dor do corte profundo...
    Como será? Realmente vou me sentir sozinha? Ou não vou sentir nada depois da dor?
    Voltou a pensar nos filhos, Thomas e Samanta. Tom cuidaria de Samy na falta dos pais? Ele era apenas uma criança, não poderia esperar muito dele. Mas era corajoso, como o pai. Determinado. Os olhos eram dela, verdes. Samy tinha apenas quatro anos, com certeza ficaria abalada.
    Como doía! Nunca imaginara que seria tão doloroso, nunca imaginara que aconteceria com sua família.
    Ai! Ela gritou e virou-se de costas para a pia. Um homem descia correndo a escada. Vestia a camisa branca dobrada até o cotovelo e uma calça preta. Estava de meia sem sapatos. A barba por fazer. Os olhos escuros encontraram os verdes. Assustou-se ao ver o sangue na faca, mas foi incapaz de falar.
    Ela olhou ao redor: os móveis fora de lugar, vasos e plantas quebrados e espalhados no chão. Esta era apenas uma conseqüência menor da última briga. Ela o olhou novamente. Tudo estava acabado. Era uma questão de tempo até que estivessem separados para sempre. “Não era isso que ele queria?”, pensou.
    Mas havia algo diferente nos olhos dele. “Seria piedade por causa do que via?”. Não, sabia que não. No fundo ele a amava. “Então por que traiu?” “Como gostaria que acabasse diferente, agora que sentia a dor da partida”.
    “Meu amor” ele disse. “Perdoe-me”.
    Ela sentia a sinceridade em suas palavras. Precisava sentir. Era tudo o que queria ouvir. Virou-se para a pia novamente. Deixou a faca cair. Lavou o dedo que cortara enquanto fatiava a cebola e correu para os braços dele. Precisava de seu abraço. O amava tanto que tentaria novamente.
    Eternamente.

4 comentários:

  1. Achei intrigante o texto e com um suspense que nos prende.
    Mas senti falta da diferenciação dos pensamentos. Não sei se é a protagonista ou o narrador falando: "O que acontecerá aos meninos? O que iriam pensar depois que...?"
    Também senti falta dos travessões de diálogo, substituídos pelas aspas. Por que fez dessa forma?

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  2. Foi apenas uma forma diferente que escolhi para contar essa história. Realmente ficou um pouco confuso depois que postei, no original não estava assim. rsrsrsrs

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  3. É interessante (eu já tinha lido com o título "Sangue na faca"). Há problemas com a pontuação no começo, mas fora isso gostei bastante.
    Só senti falta de mulheres gostosas, dragões e violência gratuita.

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  4. Gostei do conto, surpreendi-me com o final!

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